" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)
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O SOM DAS NUVENS

Sim, daqui ouço o mar mas ainda não é noite, ainda há raios pintados de cor de prata na estrada liquida onde as palavras se perdem. E eu caminho na eternidade dos meus pensamentos em passos lentos numa direcção descontínua. As estrelas ainda estão intactas na sua mordomia sonolenta e esta história podia ser escrita agora ou nas reminiscências do ontem. Sim, daqui ouço o mar mas cheira a terra sempre que o vento enfurece, e fica uma incógnita no meu sorriso, uma nitidez que se desfaz em espuma branca na imitação das ondas. Queria ver-te, sabes? Queria tocar no som das nuvens que já não fazes e ouvir a imensidão daqueles momentos por onde entrava o luar, queria encharcar os ossos naquela chuva azul que nos lavava por dentro e apagava as cores da água fria de Novembro. Ainda te lembras quando ficávamos inundados de sonhos caídos da última madrugada? Sim, ouço o mar daqui, mas hoje é um daqueles dias que precisava ver a lua no entardecer e pintar-te nas ruas da noite que começa a abraçar-me.

(Francisco Valverde Arsénio)

REPOSIÇÃO (2)

Os minutos são pedaços de sentires que queimam como fagulhas incandescentes ao desprenderem-se das palavras. Dedilho nas gotas de chuva que me embaciam os olhos quando te penso… e penso-te todos os segundos que os minutos têm. Projecto-te no meu coração como se fosses mar em mim, e antes que a manhã me esventre todos os sonhos dissipo os nevoeiros que me assolam… tento esboçar um poema para te oferecer, mas sei que estás na outra margem do rio.

(Francisco Valverde Arsénio)

INTERROGAÇÃO BREVE

Que sabes tu do que escrevo, do som das ruas por onde passo, dos canaviais que me habitam ou dos universos que me embriagam. Que sabes tu dos meus tempos cansados, das paredes caiadas e vazias, do papel, da borracha e da caneta, dos meus amores… sim, que sabes tu das paixões que tive, das memórias e dos rios que desaguavam nos ventos de chuva. Que sabes tu das árvores onde esculpi amores, da guitarra que falava por mim, da velha corcunda que vendia paladares nas escadas do jardim. Mas se sabes, diz-me porque a carne se sobrepõe às vontades da sensatez, porque é que os meus lábios teimam em soletrar o teu nome e o rio agenda todos os nossos encontros. Hoje vi à venda mirtilos azuis e lembrei-me de uma canção que não fiz para ti mas que falava da liberdade dos pássaros e do cantar das palavras mudas quando as mãos sussurravam em toques subtis. Que sabes tu de mim que eu ainda não sei?

(Francisco Valverde Arsénio)

A BAILARINA DA CAIXA DA MÚSICA

Escrevo porque preciso continuar a falar para além de mim, para além do eco da minha voz, para além do som com que pinto as palavras. É por isso que desenho mapas de ruas com letras e deixo cores nas linhas do caderno. Largo-as sem as exigir perfeitas, invento-as tal como faço com o meu dia, despejo-as sem me preocupar com a quantidade e dou-lhes toda a liberdade de seguir. É raro pedir a esta ou aquela palavra que ocupe outro lugar que não o primeiro que encontrou, é como se saíssem da caneta com um número inscrito, com a fila e lugar marcado na plateia da folha em branco. Admito que muitas delas sejam autênticas utopias, mas eu não sou um anjo de colocar no altar nem um moralista sequioso de atenção. Talvez seja uma espécie de suspiro irreal como a bailarina da caixa de música. Escrevo porque recuso ser a sombra de um livro que não escrevi ou o figurante de última fila de um qualquer Auto de Gil Vicente. Escrevo porque preciso e quero continuar a falar para além de mim.

(Francisco Valverde Arsénio)

O NECTAR DOS DEUSES


Ofereço-te uma taça de vinho servido à temperatura do meu corpo para que o sorvas e lhe degustes o sabor no silêncio do cristal translúcido. No banquete enfeitado de bálsamos, devolve-me o sentir leve dos teus lábios na minha pele em quentura extasiante de aromas. Façamos um brinde de travo doce com este líquido inventado pelo acaso antes de haver contagem progressiva do tempo. Deixa cair uma gota no meu peito. Inventa inocentemente um gesto e embriaga-te de mim, deixa-te envolver, entrega-te da mesma forma com que ergo a taça, deixa vir de dentro, do mais profundo de ti, a sensualidade que te veste. Sente a textura de seda, presa mas não submissa a este néctar nas papilas gustativas. Ofereço-te uma taça de vinho em troca das sete cores do arco-íris que pintam o teu sorriso.

(Francisco Valverde Arsénio)

O NADA QUE NOS SEPARA...É TUDO


Acredito que já não te recordes de mim, que tenhas esquecido o meu corpo enquanto habitante do teu, que seja tão-só um fantasma perdido na nudez opaca da noite. Passaste num dia incerto diante dos meus olhos… continuas com o mesmo andar fugitivo, a mesma cadência oblíqua das ancas e até com o mesmo perfume. Caminhavas taciturna na manhã que despontava e o céu parecia pincelado de sangue perante a esfera maior do nascer do sol. Fui tentado a seguir-te pela rua íngreme e claustrofóbica da cidade, mas fazê-lo seria regressar ao universo inteiro como faz o sonâmbulo quando habita o sono, seria voltar a ler todos os livros do mundo ao mesmo tempo e a enclausurar na retina dos meus olhos todas as folhas pintadas de letras, seria admitir que és a simbiose perfeita entre o palpável e as teorias. Acredito que já não te recordes de mim nem que releio todas as tuas poesias apesar de as saber de cor… passaste num dia incerto diante dos meus olhos, passaste leve como o pó e eu interroguei-me, porque esmoreciam as palavras que ia calando e estas se escondiam debaixo da língua. Não obtive resposta mas reparei que o mundo é de facto redondo já que tudo começa e acaba em ti.

(Francisco Valverde Arsénio)

FUSÃO


Entrego-te o meu corpo 
em chamas da cor do sangue 
que se entorna do cálice.

Entrego-te pétalas soltas 
para que formes a flor 
que rompe dos teus lábios 
e sal do mar 
para temperares as lágrimas.

Entrego-te 
e entrego-me, 
neste derrame de memórias 
que ficou talhado no teu corpo 
no êxtase da dança ébria 
que deixámos inacabada. 

Desenlacei o nó 
que me estrangulava 
e senti o pulsar espasmódico da tua pele.

Entrego-me da mesma forma 
com que te entregaste.

Francisco Valverde Arsénio) 

FALO-TE DEVAGAR...


Falo-te devagar daqui do cosmos do meu leito. Não soletrarei a palavra velada da paixão que nos habita, serão os meus dedos loucos e ávidos que deixarão na tua pele a arrebatada loucura da textura lilás das pequenas flores da macieira. As minhas mãos têm sempre bocados de ti… quando gizam o teu corpo nada soçobra do amor que se faz, porque têm a ventura de ver sorrir o sol entre um poema e um beijo. Não há lugares dissipados no grito da noite que repousa, conhecemos a ciografia de cor, as ilhas uma a uma, o arquipélago todo em que nos tornámos. Não somos bagos nascidos dos cachos duma nortada, somos parte insolúvel de todos os quadrantes da rosa-dos-ventos. Falo-te devagar… no meio desta constelação de cetim.

(Francisco Valverde Arsénio) 

LETARGIA DO SER...


Nos teus olhos há versos conjugados ao arrepio das fissuras que te rasgam o coração.
Circulam mundos lá fora onde viajas de pálpebras fechadas, entrecruzas as pernas sobre o lençol que te adormece a pele, há um sono de flores na jarra castanha que jaz abandonada junto do livro ainda por ler. Na memória permanece o calor do quarto habitado no tempo exacto em que eras personagem de destaque… «é o destino», dizes com os lábios humedecidos por uma lágrima que se soltou, sabes os nomes dos ventos que espreitam em todas as madrugadas como se entoassem o refrão duma música cíclica no contratempo. Porque faz frio não podes ir apanhar as folhas amarelecidas dos álamos e perdes outro momento, outro momento efémero como o abraço que demora a chegar. Amarrotas o lençol contra o peito… e adormeces. 

(Francisco Valverde Arsénio)

PARA TI... DEVAGAR


Pediste-me um poema com pressa como se tivesses sido mordida pelo vazio das palavras que não tens. Nos teus olhos de pupilas rasgadas alimentas a verdade que se esvai quando despes o vestido negro por dentro do corpo… já a tua pele não ri ao toque prévio de outrora, já os teus seios se esqueceram da voracidade de outros lábios e o avesso do corpo ferve, ferve… numa submersa tempestade. Agora, a insónia dorme contigo no aconchego do tempo que se foi, há ausência do cheiro a amor feito, há vinho bebido num só copo. Pediste-me um poema com pressa porque as pétalas das rosas estão a mudar de cor, porque o teu sangue tem raízes impregnadas de sonhos, mas, na ausência do poema, deixo-te todas as palavras que trago presas nas mãos.

(Francisco Valverde Arsénio)

PERMITO-TE PASSEARES PELO QUE ESCREVO…


Cala nos teus lábios o meu nome, ele não é uma partícula na confluência de um todo nem um exíguo fragmento de um espaço vazio enredado em teias de medos. Cala os teus olhos nos meus olhos como se fossem uma metamorfose de vida, uma noite completa, um crepúsculo desalinhado, um raio no céu do Olimpo. Não te percas num nada que nunca foi nosso, num poema em “contenção” ditado na cumplicidade de um heterónimo numa noite que nunca conheceu o dia. Há olhares que não falam mas são tão reais como o eco de um grito e há lágrimas que são cristais de sal em forma de diamante. Cala os teus dedos na minha pele, sou a flor da urze que canta num gemido faminto, sou o lençol imaculado que te espera, a gota de água vadia que percorre a folha que irrompe silenciosamente do caule. Estamos no tempo do regresso dos tentilhões às árvores do jardim porque os pássaros fazem cantar as flores e os ulmeiros. 
Cala… chamando-me.

(Francisco Valverde Arsénio)

O TEMPO QUE FEZ PARAR O TEMPO


Tocaste na minha mão suavemente enquanto o vento me fazia arrepiar. Quis-te ali no canto da minha boca, no beijo que tardava, no leve suspiro que se desenhava no teu rosto. Queria-te mais que tudo na orla das paredes que nos cobria dos olhares, fiquei com os teus olhos nas minhas mãos - tique tão característico dos amantes - e uma lágrima marinha que saiu dos teus olhos salpicou-me de odores salgados. Guardo o teu sorriso e a gargalhada que rompeu o silêncio e se reflectiu em mil pedaços, as tuas pernas foram água na avidez de te tornares universo, foste mar para lá do mar, pétala que não tocou no chão, exaspero do teu corpo, do meu corpo e a pressa dum dia tão lento. Converti-me à tua sede saciando-me da pele que te vestia e contemplei-te como se estivesses encerrada num retrato. Obrigado pelo tempo que fez parar o tempo.

(Francisco Valverde Arsénio)

HOJE... VOU DAR O TEU NOME AO DIA, À TARDE E À NOITE!


Penduro o capote no cabide cheio de peças de vestuário mesmo por cima da minha cabeça. Trouxe o capote porque hoje deve ser aqui o dia mais frio do ano. Á minha volta todas as mesas estão cheias, lá fora na esplanada, as cadeiras estão arrumadas e presas com uma corrente. Hoje vai ser um bom dia de negócio para o Arlindo, ninguém quer ficar do lado de fora do café. 
Não sabia que escrever quando me sentei, tenho os dedos enregelados e as letras ficam tortas no caderno A5, mesmo assim, como este é quadriculado, as linhas ficam mais direitas que aquando usava o outro liso. Como tenho o poder de me abstrair do burburinho provocado pelas dezenas de clientes resfriados à espera da bebida quentinha, pego na caneta de tinta permanente e ensaio as primeiras palavras. Ainda é manhã e não sei como o dia acaba, mas tudo tem de começar por um princípio e assim, escrevo. A vida distribui-se e divide-se por momentos, por isso vou escrever um pouco mais que o habitual neste caderno onde rabisco todos os dias. Não sei se o dia de hoje vai ser diferente de ontem, talvez seja, talvez não, mas vou deixar-me embalar rasurando ou não o que escrevo. Há pouco, mal comecei a escrever faltou a tinta na caneta, mas trago sempre umas quantas cargas na mala para não acontecer o mesmo do outro dia em que terminei a crónica com um lápis do IKEA. Podia ter deixado as páginas em branco ou escritas com outra cor mas não sou capaz de fazer tal coisa, tenho rituais na escrita e a minha caneta de tinta permanente é a extensão dos meus dedos. 
Sempre, como sempre, vou falar de ti. Vou tentar descrever-te como personagem da minha vida onde existes em cada página, em cada crónica. Vou estender-te ao correr das linhas e desenhar o teu corpo por palavras, todas as palavras que me pertencem. Sempre, como sempre vou falar de ti. Aqui sentado neste canto, é o momento ideal para te descrever por entre os minutos badalados pelo relógio grande naquela parede. 
Aqui encontro-me entre o silêncio que me percorre o corpo. Neste momento de isolamento deixo-me levar por ti e transformo-te em palavras e espaços em branco entre linhas. 
Vou falar de ti com quem tanto aprendi. Aprendi que todas as minhas palavras são sempre insuficientes e que a intensidade deixada nos afectos é medida com os olhos nos olhos e que os beijos tem sempre um gosto a pouco. Aprendi que todas as feridas podem ser saradas e que as lágrimas vertidas acabam sempre por secar. 
Ainda é cedo nesta manhã fria, mas vou dar o teu nome ao dia, à tarde e à noite. Vou dar-te todos os minutos de todas as horas… tu mereces, sabemos que mereces. Ainda é cedo mas vou presentear-te na noite fria que se anuncia, sim… uma noite tua, apenas tua. Serei apenas eu entre todas as palavras e os silêncios, entre aquilo que quero dar-te. Ainda é cedo mas vem, vem porque acredito em ti quando por vezes me interrogo se devo acreditar-me… vem. Vem que irei pôr a tocar a primeira faixa de Herbie Hancock - “Jammin With Herbie”, vem! Sem promessas doutra noite como esta, deixa-me ser eu um pouco mais, o teu corpo junto do meu, as tuas palavras, o teu olhar perdido no meu.
Levanto a cabeça do caderno e estico as pernas entorpecidas pelo frio, peço mais um café e releio o que já escrevi. Penso-te e vou continuar a falar de ti. 
Recordo-te em todas as palavras que me dizes e que me tens dito no tempo que fazemos nosso. Falas muitas vezes nas diferenças e semelhanças entre os meus olhos e o meu sorriso e que a sinceridade do meu sorriso termina no tom acastanhado dos meus olhos. Sei que por vezes duvidas da definição dos meus olhos tal como fazes com muitas das minhas palavras, e sussurras-me tudo isso com esse sorriso de menina que me tem perdido cegamente. 
Tens no pensamento uma paleta de cores com que pintas os sentimentos e, num sorriso desconcertante, dizes como sou ingénuo sempre que te abraço e te faço minha. Mas não! Não me fales mais nas cores dos sentimentos, arruma essa paleta, não me fales mais em certezas que ambos duvidamos. 
Retrocedo no tempo pensando-me e questionando-me… podia amar-te mais? Na verdade pensei que podia amar-te mais. Pensei que podia beijar-te mostrando sempre o mesmo desejo, esse desejo que me alimenta todos os poros da pele. Pensei nisto tantas e tantas vezes. 
Começaste em mim como se fosses um cigarro, um prazer de momento que, numa inspiração relâmpago, se começa e acaba. Fui egoísta aqui e ali, confesso, mas tal como o fumador acaricia o cigarro na hora do vício, eu acariciava o teu corpo e levava-te até aos meus lábios sedentos. Agora que ficas e vais ficando, não me importam as pequenas coisas que já achei enormes, não me importa nada para além do teu olhar perdido no meu enquanto percorro os meus lábios na tua pele. 
Quero-te hoje ainda que seja manhã e não saiba como o dia vai acabar; quero percorrer e sentir que esse arrepio sentido é provocado por mim, quero saber de cor o teu perfume e perder-me no teu jeito perverso que me prende a ti. Quero-te hoje ainda que seja manhã e não saiba como o dia vai acabar; quero-te naquele momento em que o desejo fala mais alto que os sentidos; onde a tua roupa cai no chão e o teu nu me chama. Assim, desnudada, és muito mais tu, mais menina mulher nesse sorriso de lábios abertos sussurrando que me junte a ti. 
Quero-te como se dum jogo se tratasse. Aproximas-te e tiras-me a roupa que me pesam toneladas e em silêncio me dizes que sempre te pertenci. 
Olho-te… quero-te! 
És um mapa que percorro, conheço todos os caminhos, todas as ruelas, todos os becos e avenidas. Conheço a planície desbravada pelas minhas mãos, cheia de odores campestres, selvagens, com sabor a mar ainda que o mesmo fique a quilómetros de nós. Quero-te aqui quando nos perdermos nos corpos, quando a tua boca faz prolongar todos os beijos. 
Quero-te e… olhas-me ao compasso dos tempos e do prazer.
Olho à volta e o café está quase vazio, demorei um pouco mais a descrever-te desta vez, mas valeu a pena, vale sempre a pena quando saltas do aparo da minha caneta e fazes-te personagem.

(Francisco Valverde Arsénio)

GOSTO DE TI


Gosto de ti como quem gosta de alguém que não conhece ou conhece desconhecendo. Gosto de ti pelo que calas e pelo que dizes, gosto de ti não porque, mas apesar de… gosto dos nomes dos escritores que me aconselhas, mais do que o conteúdo inserto nas folhas dos seus livros. Gosto de ti quando navegas nessa tua galáxia tão perto e tão longe, na tua caminhada entre poemas e prosas, entre transições imutáveis. Tens uma alma que transcende o perímetro do teu corpo, uma alma simples mas não simplista ou simplória, uma alma tão grande que cabe em cada poro. Li algures num lugar inserto, a frase: «escreves como um Deus», pensei em ti debruçada sobre uma mesa cheia de palavras com tantos poemas e prosas em branco por escrever esperando o sim da tua caneta. Sim, o sim da tua caneta iluminada que partilha contigo o dom de ver mais além, para lá da tal galáxia onde habitas e da sombra das pedras milenares que não se perde no tempo. Deslumbras-me com a mesma intensidade do colorido que tem a primavera, como se fosses uma aguarela tingindo o vazio das folhas brancas do caderno e lhes emprestasses o perfume aquando da concepção do poema. Atrevo-me a dizer que a lua nova acontece porque o céu precisa de ti para se encher de estrelas. Gosto de ti porque gosto da perfeição imperfeita.

(Francisco Valverde Arsénio) 

Este amanhecer traz até mim um alvor fresco. Debruço-me na aurora… pensativo… não sei de quantas cores se veste o amor quando o riso se cala na madrugada e eu pouso nos teus lábios os lábios que te ofereço. As palavras foram levadas numa lufada de vento porque conheces apenas o que pareço e não o que sou, não sonhas sequer se sou alabastro, violeta ou o azul das cores frias; laranja fogo, vermelho ou amarelo do sol do meio-dia das cores quentes. Por momentos queria ser uma pedra a rolar no tempo e me entregar nos teus braços, ser a porta entreaberta que te espera ou o rosto que aparece desenhado nas nuvens distantes. Eu sei… não sou mais que uma estrada que toma os tiques das árvores que rodopiam ao encontro dos passos, olhamo-nos agora noutra dimensão, tomamos formas fractais para nos confundirmos com a natureza, transformamo-nos em objectos não calculáveis pela ciência, rompemos com o matematicamente correcto adjectivado nas noções de geometria euclidiana. Debruço-me na aurora… pensativo… este amanhecer traz até mim resquícios dum amor esculpido em sonhos… apenas em sonhos.

(Francisco Valverde Arsénio) 

Há um silêncio inquieto na estrada por onde caminho. Daqui não se consegue ouvir o que diz o negro da noite nem o som dos passos que ficaram para trás. Será que toda a água do mar me espera? Vou seguir aquela estrela maior, a que pintou a lua de prata e corre atrás do tempo. Há silêncio em todas as esquinas e invade-me o medo de não te voltar a ver, cada passo é uma dúvida na resolução do tempo breve entre dois segmentos de recta, não tenho a certeza que ganho asas no início do horizonte. E se o horizonte estiver fechado ou me enganar no caminho? E se o teu corpo não quiser mais se fechar no arco dos meus braços? O tempo é um hábito que envelhece a cada gesto, a cada sonho guardado na memória. Olho as mãos e não encontro as tuas e a estrela maior ilumina o caminho que já percorri convidando-me a reflectir…

(Francisco Valverde Arsénio)

Duas linhas paralelas esfumam-se na abóbada azulada da equidistância. Entre o concreto e o abstracto, estas duas realidades que não ousam tocar-se fundeiam no meu peito como se fossem um navio medieval. São cúmplices, olham-me qual rio de mar brando ao sopro leve do vento, nuvem, paisagem esdrúxula, primavera antes de tempo, sol que chora fios de filigrana. Ao invés, tu procuras-me nas lágrimas de prata da lua, no fogo do trigo maduro, nas ondas agrilhoadas nos teus dedos. Há um sonho que se entretém a respigar das pálpebras como se escrevesse poemas, mas estas linhas que outrora foram paralelas abraçaram-se no infinito… e caminham agora de mãos dadas.

(Francisco Valverde Arsénio)

QUANDO OS OLHARES SE PERDEM


Pedi ao sono um pouco mais de tempo, que me deixasse olhar para dentro de mim antes de me aconchegar na maciez dos lençóis. E fiquei assim com o sono espreitando os meus pensamentos.
Fechei os olhos e não sei onde estive, apenas que revisitei um outro sonho ocorrido no tempo dos sonhos… e ali fiquei parado no meio da tempestade desalinhada que fazia sombras nas paredes do quarto.
Neste lugar sei que te encontro, tenho-te aqui num esticar de braços enquanto lá fora imagino o céu vazio de estrelas, elas correram todas para te iluminar e dar aquele ar prateado ao teu sorriso. O sono permitiu que te revisitasse tal como o fez noutros lugares onde te levei a voar por entre as nuvens naquelas manhãs frias de inverno. Se me perco em ti, sei que a noite não vai ser suficientemente longa, não tarda nada o sol rasga a negritude das horas e obriga-me a dar-te um beijo de despedida. E eu… eu agarro-me no desespero do tempo para que fiques.
Quis ficar aqui a sonhar-te mas não a repetir o mesmo caminho. 
Quero-te como se duma primeira vez se tratasse, sentir-te entre as palavras prenhes de sentidos e sentimentos que só tu sabes pronunciar. Sentir-te por entre as flores que marejam os campos planos perdidos entre a terra e o céu.
Ajuda-me a sonhar-te onde as nossas bocas desorientadas se perdem em movimentos inquietos; as mãos irrequietas e enlouquecidas guiam o movimento dos corpos sedentos e se tacteiam mutuamente… e se perdem para lá dos sentidos.
Ajuda-me a sonhar-te num sorriso cúmplice e desajeitado, em que os olhos ficam calados pelos lábios naquele toque tão nosso onde as únicas palavras são de amor mas que não se escrevem. 
Estou aqui acordado a sonhar-te, mas se estenderes os lábios saberás que estou sempre à distância dum beijo. 
Podes adormecer enquanto te sonho, a minha mão segurará todos os medos e quero acordar-te com o mesmo beijo com que adormeceste.

(Francisco Valverde Arsénio)

O TEU OLHAR É UM POEMA


"Tu sabes que escrevo mesmo quando dormes e que o teu olhar é o meu melhor poema, mas de quando em quando não me olhas e eu perco todas as rimas, todas as imagens. Lembro-me da primeira vez que te olhei, foi dessa vez que te roubei o olhar e nunca mais o restituí. Jamais o terás de volta porque é nele que mergulho todas as madrugadas e transformo cartas em poemas. Sim, o teu olhar é um poema" 

(Francisco Valverde Arsénio)

ULTRAPASSO AS FRONTEIRAS...


Ultrapasso fronteiras, mares e desertos, insanamente entro no espaço-tempo e consumo a essência do perfume das últimas flores. Caminho despido de mim como uma escultura fria porque deixei nos esteiros do teu corpo o sentido do tempo; sinto ainda nos pés a areia doída e guardo nas mãos a poeira fina da tua silhueta. Serão sempre tuas as palavras que não escrevo contrariando a erosão dos dias e a solidão das noites. Sabes, adivinho-te os gritos surdos e o verbo imperfeito que acontece na tua cama onde há um oásis por nascer. Sente-se o desassossego por detrás do pano branco que cobre a janela na manhã que se reinicia ciclicamente no apagar das luzes. Recuso-me olhar e mordo as palavras à saída dos lábios. Caminho despido de mim mas aguardo-te na próxima rua.

(Francisco Valverde Arsénio)