" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)
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DIA 7

Mudei. Mudaste. Mudou-se o "eu" em ti, o "tu" em mim. Agora.
Num tempo em que se fazem chávenas de plástico, quando abanamos as árvores, pouca coisa cai. 
E já nem nos perguntamos o que fazemos aqui.
Vamos andando, eu hei-de descobrir. Sigo os meus instintos de uma forma sólida, cega, e barata. 
Não há pior que isto. Nem melhor. Os nossos dias têm cada vez menos vida. 
Por isso damos palpites. 
Como se isso fosse uma mudança.
Culpados ou inocentes, ainda não reparámos no que está a acontecer ao que sobrou de nós.
Mas vamos tentar salvar o mundo. 
E confirmar que somos mais
do que a soma das coisas que fizemos.

DIA 81 (EXCERTO)

Liberta-me com um beijo. 
Uma doçura como só têm os pássaros e as amoras. 
Uma felicidade que, mesmo ao contrário, torne semelhantes os nossos corações e a nossa liberdade.
Acorda-me agora tu, neste momento preciso em que preciso de dignidade e de coragem para pensar-me, deixando que as coisas profundas e redondas, os frutos e os peixes, possam reconhecer as minhas mãos que, sendo importantes, são o que mais afastado está de mim.
Nestes momentos de sol em que me pedes para sorrir, penso que nada, afinal, é demasiado importante a não ser o sonho de cada um de nós. 
Até o mar, o mar denso, trágico e profundo, passeia pelas praias como nós andamos, descalços, pelo chão da nossa casa.

(Joaquim Pessoa)

DIA 354 (EXCERTO)

Embriago-me na adega das minhas pupilas, purifico os meus ombros, adormeço na água como os nenúfares.
Imolo-me no fogo de uma ideia, na minha cabeça tudo arde, todo o corpo se liberta até o amor doer, até doer-me essa mulher cujo sabor não quer abandonar
a minha boca.

(Joaquim Pessoa) .

POEMA SEPTUAGÉSIMO SEXTO

O que esperar do sonho
corrompido? Como habitar 
uma terra inóspita sem uma pedra, uma faca,
uma vara que floresça o novo discurso
da esperança? Como acender no peito um novo fogo,
sem antes retirar do coração a cinza? Como
convencer as palavras que não devem 
confundir 
o amor com o ódio, 
num velho exercício de tristeza?

(Joaquim Pessoa)

DIA 113 (EXCERTO)

Apertei os sapatos em terra para caminhar pelas ondas que me levaram ao coração livre dos pássaros, ao imenso espaço das gaivotas, às searas do sal, às colinas do mar onde se fabrica o azul.
Depois, a técnica foi gostar. E amar. Amar muito, sempre. 
E sempre sem esperar nada de ninguém. Sem apascentar promessas, sem duvidar de mim. Crescer pelos ombros, pelos olhos, pelas curvas da distância.
O país do amor não tem horizontes, nem sequer tem horas, o país do amor não possui caminhos. Está-se lá, apenas. Vive-se lá, onde todas as perdas são possíveis para ganhar alguma coisa de que precisamos, e sem precisar de gostar dela.
As águas do amor são mais humildes que transparentes, e a elementar serpente que as atravessa, e que arrulha como uma pomba, é na realidade uma pomba se tu não quiseres que seja uma serpente.
Eu não te invento nas canções, não te beijo com a saudade que vive na memória das ruínas, nem espero por ti com a queixa escondida no peito frio das muralhas.
Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti, e o meu olhar beija-te. Canto, e é a ti que canto.

(Joaquim Pessoa)

DIA 143

Recordo as imagens. A tua lembrança é uma queimadura que não dói. Já não dói. A música que fez rodar as nossas tardes está obscuramente calada, a flauta é infeliz, o diabo está dentro dela. Os nossos anjos estão agora num asilo, as suas asas estão molhadas de amargura, a truculenta carne da paixão perdeu o prazo e o sabor. Volto-me para dentro e vejo minúsculas matérias que não se revelaram, não aconteceram, não chegaram a florir. Foste brilhante, pura, azul como a aura de uma criança loira. Agora, os teus dedos bailarinos são de metal, são frios, incapazes de comunicar, de se exprimirem na linguagem que ajudou a derrubar todos os impérios: a ternura. Não estou apavorado, só estou triste. E nem preciso que me expliques as razões porque morremos, estando ainda vivos. Como algumas estrelas que explodiram há muito, mas que continuamos a registar no mapa do céu. Se me mostrares um caminho, eu seguirei noutra direcção.

(Joaquim Pessoa)

20

Conheço as lágrimas.
As lágrimas do pó,
das mãos, das nuvens e da fala.
Com elas faço jóias, faço casas,
ofereço-as nas palavras
aos campos de silêncio que Deus lavra.

(Joaquim Pessoa)

POEMA QUINQUAGÉSIMO QUINTO


Com as palavras te abraço. 
Com as palavras te dispo. 
Com as palavras te beijo. 
Com as palavras te escrevo.
Com as palavras subo o dia, sei do sangue, sonho o tempo. 
Com palavras falo, com palavras penso,
com palavras sinto. 
Com as palavras canto.
Com elas me acalmo. E me enfureço. E me culpo
e absolvo. Com palavras me recordo. Por todas elas me esqueço. E me sei, e me dou, e me doo. Com as palavras me deito. E amanheço. E a todas agradeço. De todas me despeço.
A todas reconheço.
Por elas sou o ponto de partida
e também caminho de regresso.

(Joaquim Pessoa)

A UM PASSO DO AMOR


A um passo do amor estarás a um passo do futuro e a duzentos mil anos do passado. 
O teu nome é o nome de todas as coisas, 
quando todas as coisas respiram no teu nome. 
Entre o sofrimento e a felicidade, muito de ti se espalha pela vida, muita vida te aguarda, muita vida te procura. 
Um duplo coração bate dentro do peito e fora de ti. 
Tens a sabedoria das crianças e a sabedoria dos velhos. Sabes ferir e beijar e sentes o vento do orgulho. 
Pequeninos gestos, grandes pensamentos, constroem um dia excepcional, um amor excepcional, uma violência excepcional. 
Todas as noites são uma só noite, tanto desespero pode voltar a ser esperança. 
As tuas mãos são uma pátria. 
Os teus dedos são, umas vezes, o mais difícil dos rebanhos. 
E outras, os cães que o guardam, quando a verdade é triste e o amor tem a fome e a sede das estrelas. 

(Joaquim Pessoa)

HOUVE UMA ILHA EM TI


Houve uma ilha em ti que eu conquistei. 
Uma ilha num mar de solidão. 
Tinha um nome a ilha onde morei. 
Chamava-se essa ilha Coração. 

Que saudades do tempo que passei. 
Nenhum desses momentos foi em vão. 
Do teu corpo, de ti, já nada sei. 
Também não sei da ilha, não sei, não. 

Só sei de mim, coberto de raízes. 
Enterrei os momentos mais felizes. 
Vivo agora na sombra a recordar. 

A ilha que eu amei já não existe. 
Agora amo o céu quando estou triste 
por não saber do coração do mar. 

(Joaquim Pessoa)

DIA 34


Sagrado é o coração da árvore, a vigília da pedra, a gravidez da amêndoa, o pulsar do rio, a timidez do bosque, o trabalho discreto da semente. 

Sagrado é o lenho, e a erva, o cavalo, o boi e o cão, sagrado é o sol, sagrada a casa, a noite, o dia, o círculo e a pirâmide. E sagrado é o vento e a vontade, e o branco e a esperança. 

Sagrados são os montes e os filhos e os sentidos e os pássaros e os humildes. É sagrada a dança e a cabeça e o azul e a primavera. Sagrados são os cornos do inverno. E as flores amarelas. Sagrado é o desejo que umedece o corpo. Sagrada é a distância. E a memória. 

Sagrados são os lábios, o cérebro e as mãos. E os astros, e a espuma e a teimosia dos metais. E é sagrada a arte e o amor e a claridade. E o centro do homem. E a voz da terra. E o equilíbrio dos instintos. E o mistério dos mortos e dos vivos. E as razões do amor. 

Sagrada é a forma e a beleza e a luz e o fogo dos teus olhos. 

(Joaquim Pessoa)

TU ENSINASTE-ME A FAZER UMA CASA


Tu ensinaste-me a fazer uma casa: 
com as mãos e os beijos. 
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram 
voz e abrigo. 
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí 
a minha casa. 
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se 
entre palavras duras e precisas 
que tornaram a tua boca fria 
e a minha boca triste como um cemitério de beijos. 

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas 
mordendo o fruto das manhãs proibidas 
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo 
para saudar o vento. 

E vejo teu corpo perfumando a erva 
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros 
que agora se recolhem, quando a noite se move, 
nesta casa de versos onde guardo o teu nome. 

(Joaquim Pessoa)

ÉS LINDA


És linda. E nem sabes quantos pedaços de beleza tive de juntar para chegar a esta conclusão. Para te construir, tive de misturar a conspiração das searas com a tristeza do choupo, a inquietação da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos miosótis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paciência das casas à beira da falésia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem à lua. Acrescentei-lhe a canção das margens e pequenos pedaços da angústia do olhar. Não esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o coração dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus músculos prometi a violência das cascatas, no teu sexo acordei a memória do universo. 
A tua beleza está no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. És linda, repito. Mas tenta não encarar o que te digo como um elogio. 

(Joaquim Pessoa)

POEMA NONAGÉSIMO TERCEIRO


Gosto das palavras frágeis como gosto de ti
e a verdade é que também é frágil a minha forma de gostar-te.
Tudo o que me chega de ti, palavras, beijos, luzes, injustiças,
traz essa fragilidade das dunas que lembram o teu corpo
e esse código antigo decerto herdado da primavera,
antes mesmo de haver um tempo de celebração das flores.

Por vezes gostava de ser tu. Ser frágil e usar anéis
com as pedras raras da esperança, as insondáveis pedras
dos dias que hão-de vir. Mas vivo o exílio destes dias repetidos
sobre a efemeridade da pele, vogando como cisnes moribundos
em busca de uma última revelação, talvez a melodia tão pura
que possa transformar em pão não só as nossas rosas
mas também a própria liberdade. 

E é por isso que amo
as palavras frágeis, essas palavras nuas que me ofereces
e que são, assim, de tão frágeis, a minha imensa força
e o meu fatal deslumbramento.

(Joaquim Pessoa)

EU NÃO TE CONHEÇO, MAS SEI QUE EXISTES


Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como, mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre á tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.

(Joaquim Pessoa)

DIA 61


Atravessei o buraco da agulha. 
Do outro lado, um mundo surpreendente. 
Nem freguesias, nem distritos, nem países, sequer. Quero dizer, não há nações. 
E não há discursos, nem propaganda. 
Os pobres não são pobres, porque não há ricos. 
Há coragem. 
E conta muito a opinião dos outros. Ninguém conhece o roubo. Não há polícias, existem apenas pessoas que se respeitam e acreditam. E confiam. 
E há sempre respostas para as perguntas. 
Não há necessidade de provedores nem reguladores nem promotores públicos. 
As fechaduras têm como função evitar que as portas batam e os Bancos têm como função evitar que, pontualmente, as pessoas tenham dificuldades. 
O trabalho é organizado conforme as aptidões de cada um e o ensino regulado pelos que sabem ensinar. Os salários são justos e suficientes. Assim como os impostos. 
Os museus estão cheios de visitantes. Ninguém deixa de pagar o que pede emprestado e o governo democraticamente eleito é constituído pelos cidadãos mais competentes em cada área. A sua primeira preocupação é a qualidade de vida dos cidadãos. 
Há um Ministério do Amor. E um coeso Sindicato de escritores, artistas e músicos. Não se utilizam recibos verdes, nem azuis, nem de qualquer outra cor. 
Foram extintas as armas, banidas as guerras. Desconhece-se a corrupção e ninguém parece saber o que são as drogas. 
O mercado é transparente, as acções são de valor firme porque são as imputadas ao valor moral de cada cidadão. 
A única violência conhecida é a da natureza. E Deus já não é preciso. Fez, bem feito, o que pôde e o que soube, e deixou o restante entregue à capacidade dos homens. 
Se quiserem atravessar também o buraco da agulha, inscrevam-se. Quem ainda não souber assinar, faça uma cruz.

(Joaquim Pessoa)

DIA 294


Francamente, estou bem. Nem acredito que estou a dizer isto,
mas estou bem. Há dias assim, dias felizes, dias perfeitos, dias maiores entre a soma de outros dias tão iguais. 
Decerto inesquecíveis por pequenas razões, pequenas coisas, pequenos gestos, em que se revelam a majestade das ideias, a grandeza da inteligência, a vitalidade do amor, a plenitude da vida.
Hoje amo tudo o que é livre e o que é escasso e pobre, e igualmente o que é rasto, o que é resto, o que um dia será rosto. 
mar tem hoje a cor dos moinhos, há túneis que jorram luz, a magia bebe o leite das basílicas e dos canaviais, a água 
continua a ser mãe das palavras e alimento do sol. 
Hoje cantam as cigarras no silêncio dourado, coram as faces das moedas, e toda a raiva bebe a sopa preparada com o orvalho suado das estrelas. 
Hoje é dia simples, é dia sim, é dia santo, é dia de sorte,é dia de silêncio, é dia de sorrir.
Faço hoje menos falta a mim mesmo.

(Joaquim Pessoa)


DIA 46


São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pe-quenas.

São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas.
Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita.

São as pessoas como tu que nunca nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor.

São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram respostas para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.
As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos.

Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino.
São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.

(Joaquim Pessoa)

POEMA QUADRAGÉSIMO


Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.

(Joaquim Pessoa)


DIA 28


O dia depois de amanhã será o dia das artes, da escrita e da música. Dia de brilhar a gramática e a maturidade. Corpo de árvore e de mãe, sopro dos vivos que estão vivos.

Dia que mexerá no sangue, nos livros, no começo das coisas.
O dia dos que lavram, dos que colhem, o dia sim, o dia sempre, o primeiro dos dias limpos, amplos, infinitos.

Por isso, amanhã não será o dia.

Não será o prodígio. Não será a vertigem. Amanhã é a mesma ferida de hoje, sem fogo, sem cura, sem coragem.

Voto no dia depois de amanhã. Voto em cada coisa que se expõe numa aura de luz, voto no poder do amor e no poder do fogo, no âmago e no corpo da canção. Voto em tudo o que se
prolonga e se diverte. Voto na imaginação.

Voto no início e no fim dos equilíbrios. E voto na memória do futuro. Porque no dia depois de amanhã acreditarei em ti. 
em mim.

E no perfume das vozes que hoje cantam em silêncio.

(Joaquim Pessoa)