" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)
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JARDIM DE POETAS

Falei-te sem querer
De coisas belas
Como quem abre janelas
Para lá do horizonte
E tu sem saber lá tricotares
Um romance de palavras
Sem certezas nem futuros
E tu sonhares no areal
Como um jardim de poetas
Superiores e verticais
Em rigor nunca existiu
E tu como se fosse há vinte anos
Subiste ao alto das rochas
Lá onde pousam as gaivotas
Subiste ao alto das dunas
Onde o vento te possui
Cresceu-te no peito um mar de prata
Como se eu fosse alguma vez isento
Como se eu fosse acaso
Alguma vez na vida a perfeição
Mas quando te contei coisas de mim
Daquelas coisas grandes cá de dentro
Caíste em ti no sonho do jardim
E fiz-te então amiga esta canção

(Pedro Barroso)

COMPANHEIRA

Deixei pousar minha boca em tua fronte
toquei-te a pele como se fosses harpa
escorreguei em teu ventre como o vento
e atravessei-te em mim como se fosse farpa
Deixei crescer uma vontade devagar
deixei crescer no peito um infinito
morri da morte lenta do desejo
e em cada beijo abafei um grito
Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira
Inventei mil paisagens no teu peito
rebentei de loucura e fantasia
quando me olhavas devagar com esse jeito
e eu descobri tanta coisa que não vias
Havia em ti uma forma grande de incerteza
que conseguias converter em alegria
havia em ti um mar salgado de beleza
que me faz sentir saudades em cada dia
Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira

(Pedro Barroso)

ETERNO

Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais queiras diferente; que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade
do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d'Aire
- mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax
e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada,
felina e ondulante numa ilha tropicaL
ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
a quem atribuíssem um número de contribuinte
e que sejas louca e sábia que tenhas lábios e mordas, sorvedouro inteiro de vida,
arrepio de garça, sacudir de cisne,pose de Diva, corpo de areia e luz,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e voes como a gaivota em cada espreguiçar e que sejas, mores,
vivas e creias língua e sorvas, sexo e sexes,
salto e salto, riso e rias, passos de corsa, graça de arlequim,
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo
e fecundes um poema em cada gesto
e partas para a Índia em cada cacilheiro
longe
muito longe daqui...
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejoboca de Mundo, seios de Mármore, corpo de AlfazemaSe existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
quero que sejas profundamente minha e ritual
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

(Pedro Barroso)