(Rita Pais)
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(IN) SONORIDADES
Perturbam-me os gritos que ecoam em alguns silêncios. São mais inquietantes do que palavras que se soltam roucas, fundas, sonoras, das gargantas onde nascem. Apetece-me o recolhimento, porque me perturbam os gritos, os silêncios, as palavras…
ATÉ DEPOIS
Preciso de tempo. Preciso de espaço. Preciso de mim. Não posso sufocar na minha própria estagnação. Não posso acomodar-me no facilitismo do déjà vu. Não quero adormecer nos ecos de palavras ditas, escritas, revisitadas. Devo abrir as portas a novas transgressões. A um outro gostar. A um estar após a catarse de ser. A complexidade é o antónimo do tédio. E os labirintos que conheço já não me atraem, já nada me dizem. Quebrar as correntes que me cerceiam, fazer girar a chave no ferrolho que enclausura as vontades que me provocam, ouvi-las e libertá-las. Deixar marcas de passos que ainda não dei em terreno desconhecido sem temer o «e depois?» Depois… está tão longe e no entanto sinto-o tão perto… sem hesitações, é para lá que vou!
ENQUANTO UM CAFÉ ESFRIA
Hesito em pedir mais um café.
Há muito que acenei
para que levassem a tua chávena,
não tolerava mais o lento esfriar
de um lugar vazio.
Há manhãs em que as esperas são vãs,
as noites esgotaram desejos de presença.
A tua ausência está do outro lado da rua
e oiço a onomatopeia dos teus passos
em orgulhoso mas inconfesso apelo.
És uma equação facilmente resolúvel
e sabes que eu sou uma tese
complexa de demonstrar.
Interrogas-te se vou ou se fico.
Na incerteza, rodas a chave na fechadura,
entras no teu reduto defensivo,
mas deixas a porta entreaberta…
(Rita Pais)
Há muito que acenei
para que levassem a tua chávena,
não tolerava mais o lento esfriar
de um lugar vazio.
Há manhãs em que as esperas são vãs,
as noites esgotaram desejos de presença.
A tua ausência está do outro lado da rua
e oiço a onomatopeia dos teus passos
em orgulhoso mas inconfesso apelo.
És uma equação facilmente resolúvel
e sabes que eu sou uma tese
complexa de demonstrar.
Interrogas-te se vou ou se fico.
Na incerteza, rodas a chave na fechadura,
entras no teu reduto defensivo,
mas deixas a porta entreaberta…
(Rita Pais)
ACTO ÚNICO
Estende os lençóis
na cama onde dormem os sonhos
Cobre-os com a cor
do desassossego que os desperta
Ajeita o teu corpo
como quando me esperas
Desconstrói a urgência que o arqueia
É no vagar do meu olhar nu
que te dedilho os contornos
sacio as penumbras da ausência
e despeço a saudade
do sabor dos teus lábios
no ventre dos abraços
em que se deita o desejo…
(Rita Pais)
na cama onde dormem os sonhos
Cobre-os com a cor
do desassossego que os desperta
Ajeita o teu corpo
como quando me esperas
Desconstrói a urgência que o arqueia
É no vagar do meu olhar nu
que te dedilho os contornos
sacio as penumbras da ausência
e despeço a saudade
do sabor dos teus lábios
no ventre dos abraços
em que se deita o desejo…
(Rita Pais)
PERCURSO
Visitas-me o corpo com a harmonia de uma harpa dedilhada, com a elegância de uma coreografia grega, com a delicadeza de uma peça de limoges, com a transparência da água mais límpida, com a perícia de quem esculpe o mármore, com o ímpeto de um vento contrário, com a ansiedade de uma sombra no deserto, com o ardor do sol do meio-dia, com a cumplicidade de quem percorre caminhos contíguos, com o despudor de quem desvenda segredos, com a rebeldia de quem constrói desassossegos... E eu, porque te gosto, e porque te gosto em mim, recebo-te e aceito-te. Mas se eu te convidar a que me visites os pensamentos, as mágoas, as lágrimas doridas, as confissões que não ouso e as minhas utopias... aceitas?
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