" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)
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(IN) SONORIDADES

Perturbam-me os gritos que ecoam em alguns silêncios. São mais inquietantes do que palavras que se soltam roucas, fundas, sonoras, das gargantas onde nascem. Apetece-me o recolhimento, porque me perturbam os gritos, os silêncios, as palavras…

(Rita Pais)

ATÉ DEPOIS

Preciso de tempo. Preciso de espaço. Preciso de mim. Não posso sufocar na minha própria estagnação. Não posso acomodar-me no facilitismo do déjà vu. Não quero adormecer nos ecos de palavras ditas, escritas, revisitadas. Devo abrir as portas a novas transgressões. A um outro gostar. A um estar após a catarse de ser. A complexidade é o antónimo do tédio. E os labirintos que conheço já não me atraem, já nada me dizem. Quebrar as correntes que me cerceiam, fazer girar a chave no ferrolho que enclausura as vontades que me provocam, ouvi-las e libertá-las. Deixar marcas de passos que ainda não dei em terreno desconhecido sem temer o «e depois?» Depois… está tão longe e no entanto sinto-o tão perto… sem hesitações, é para lá que vou!

(Rita Pais)

ENQUANTO UM CAFÉ ESFRIA

Hesito em pedir mais um café.
Há muito que acenei
para que levassem a tua chávena,
não tolerava mais o lento esfriar 
de um lugar vazio.
Há manhãs em que as esperas são vãs,
as noites esgotaram desejos de presença.
A tua ausência está do outro lado da rua
e oiço a onomatopeia dos teus passos
em orgulhoso mas inconfesso apelo.
És uma equação facilmente resolúvel
e sabes que eu sou uma tese 
complexa de demonstrar.
Interrogas-te se vou ou se fico.
Na incerteza, rodas a chave na fechadura,
entras no teu reduto defensivo,
mas deixas a porta entreaberta…

(Rita Pais)

ACTO ÚNICO

Estende os lençóis 
na cama onde dormem os sonhos
Cobre-os com a cor 
do desassossego que os desperta
Ajeita o teu corpo 
como quando me esperas
Desconstrói a urgência que o arqueia
É no vagar do meu olhar nu
que te dedilho os contornos
sacio as penumbras da ausência
e despeço a saudade 
do sabor dos teus lábios
no ventre dos abraços
em que se deita o desejo…

(Rita Pais)

PERCURSO

Visitas-me o corpo com a harmonia de uma harpa dedilhada, com a elegância de uma coreografia grega, com a delicadeza de uma peça de limoges, com a transparência da água mais límpida, com a perícia de quem esculpe o mármore, com o ímpeto de um vento contrário, com a ansiedade de uma sombra no deserto, com o ardor do sol do meio-dia, com a cumplicidade de quem percorre caminhos contíguos, com o despudor de quem desvenda segredos, com a rebeldia de quem constrói desassossegos... E eu, porque te gosto, e porque te gosto em mim, recebo-te e aceito-te. Mas se eu te convidar a que me visites os pensamentos, as mágoas, as lágrimas doridas, as confissões que não ouso e as minhas utopias... aceitas?  

(Rita Pais)