" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)
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VISLUMBRE

A horas flébeis, outonais -
Por magoados fins de dia -
A minha Alma é água fria
Em ânforas d'Ouro... entre cristais...

Mário de Sá-Carneiro)

QUASI

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo
esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em
bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o
triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se
derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo
errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os
mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que,
desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os
levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio,
encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé,
acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de
quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o
desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora
brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um
golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Mário de Sá Carneiro)