" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)
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BALANÇO

Uma noite, entre chegada e partida,
matámos a solidão que nos separava.
Chovia; e para cá dos vidros era a vida
que escorria, húmida, e nos tapava.

Outra noite, ouvi-te respirar
como se o teu sono me acolhesse:
maré que inundaria a baixa mar
até que o mundo desaparecesse.

Tantas noites, já, por nós repartidas
e tantas que ficaram por viver.
Conto esses dias, de tardes perdidas,
e ouço neles teu coração bater.

(Nuno Júdice)

MUSA

Provo nos teus lábios um pólen
de borboleta, húmido da noite,
com a cor do mel que vem do amor,
e um veludo de asa no centro da flor.

Deram-me os teus olhos rosas
e estrelas, como se no teu rosto
um jardim celeste se abrisse
ao viajante sem cais a que aportar.

Despida de palavras, vestida
de pétalas, és o último sonho
da ave quando se vê perdida.

Não tem fim a viagem que fazemos
nem princípio o céu em que te ponho.
Sabes o que sei, só eu sei o que sabemos.

(Nuno Júdice) 

NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES


Nunca são as coisas mais simples que aparecem 

quando as esperamos. O que é mais simples, 

como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se 

encontra no curso previsível da vida. Porém, se 

nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos 

nos empurrou para fora do caminho habitual, 

então as coisas são outras. Nada do que se espera 

transforma o que somos se não for isso: 

um desvio no olhar; ou a mão que se demora 

no teu ombro, forçando uma aproximação 

dos lábios.


(Nuno Júdice)

VIAGEM

Um barco atravessou os teus olhos,
levando um porão de sonhos para o porto
do infinito.


(Nuno Júdice)

ALEGRIA FLORAL

Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira
que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem
desça do céu para vestir de névoa os seus
seios de flor: seguirei o caminho da água nos
canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei
pela terra em busca da raíz.
Nesse dia em que os cabelos da mulher se
confundirem com os fios luminosos que o sol
faz passar pela folhagem; e em que um perfume
de pólen se derramar no ar liberto da névoa:
procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre
uma tranparência de ribeiro.
Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.
Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira
com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como
um botão de rosa, esperando que a nuvem desça
do céu para a roubar ao sonho da flor.

(Nuno Júdice)

PRESENTE

Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.
Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.
E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.
Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.

(Nuno Júdice)

POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

(Nuno Júdice)

AO JANTAR

Ao jantar, tive uma ninfa
para a sobremesa.
Tirei-lhe o vestido
e fiquei com a polpa
nas mãos.
Separei os gomos
dos seus seios, descasquei
a sua pele, soltei-lhe dos cabelos
os caroços, e vi o fruto abrir-se
num colar de róseas pérolas.
Fiz com que o seu sumo me escorresse
pelas mãos, e bebi-o na taça
dos seus lábios.
Ao jantar,
com uma ninfa nua
no prato da sobremesa,
esperei pelo café; e enquanto
não chegava, esvaziei o prato,
e fiquei com fome.

(Nuno Júdice)

PRINCIPIOS

Podíamos saber um pouco mais da morte.
Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais da vida.
Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais do amor.
Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor,
ou amar mais ainda ao descobrir que,
mesmo assim, nada sabemos do amor.

(Nuno Júdice)

CARTA

Lembro-me agora que tenho de marcar
um encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

(Nuno Júdice)

JOGO

Eu,
sabendo que te amo,
E como as coisas de amor são difíceis,
Preparo
em silêncio a mesa do jogo,
estendo as peças sobre
o tabuleiro, disponho os lugares necessários
para que tudo comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

(Nuno Júdice)

PLANO

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

(Nuno Júdice)

SONHEI CONTIGO

Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

(Nuno Júdice)