" As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas". (Fernando Pessoa)

BALANÇO

Uma noite, entre chegada e partida,
matámos a solidão que nos separava.
Chovia; e para cá dos vidros era a vida
que escorria, húmida, e nos tapava.

Outra noite, ouvi-te respirar
como se o teu sono me acolhesse:
maré que inundaria a baixa mar
até que o mundo desaparecesse.

Tantas noites, já, por nós repartidas
e tantas que ficaram por viver.
Conto esses dias, de tardes perdidas,
e ouço neles teu coração bater.

(Nuno Júdice)

DIA 81 (EXCERTO)

Liberta-me com um beijo. 
Uma doçura como só têm os pássaros e as amoras. 
Uma felicidade que, mesmo ao contrário, torne semelhantes os nossos corações e a nossa liberdade.
Acorda-me agora tu, neste momento preciso em que preciso de dignidade e de coragem para pensar-me, deixando que as coisas profundas e redondas, os frutos e os peixes, possam reconhecer as minhas mãos que, sendo importantes, são o que mais afastado está de mim.
Nestes momentos de sol em que me pedes para sorrir, penso que nada, afinal, é demasiado importante a não ser o sonho de cada um de nós. 
Até o mar, o mar denso, trágico e profundo, passeia pelas praias como nós andamos, descalços, pelo chão da nossa casa.

(Joaquim Pessoa)

ESPELHO DAS ÁGUAS

entrecortada pela quietude do silêncio adormecido
ouve-se a respiração da montanha
embalada no espelho das águas

nada é serra...
nada é rio...
tudo é alma...

tudo é seiva e luz e ser
em reflexo extasiante e hipnótico

o olhar prende-se
e apaixona-se
no abraço indecifrável de um momento intemporal

(João Carlos Esteves)

DIA 354 (EXCERTO)

Embriago-me na adega das minhas pupilas, purifico os meus ombros, adormeço na água como os nenúfares.
Imolo-me no fogo de uma ideia, na minha cabeça tudo arde, todo o corpo se liberta até o amor doer, até doer-me essa mulher cujo sabor não quer abandonar
a minha boca.

(Joaquim Pessoa) .

POEMA SEPTUAGÉSIMO SEXTO

O que esperar do sonho
corrompido? Como habitar 
uma terra inóspita sem uma pedra, uma faca,
uma vara que floresça o novo discurso
da esperança? Como acender no peito um novo fogo,
sem antes retirar do coração a cinza? Como
convencer as palavras que não devem 
confundir 
o amor com o ódio, 
num velho exercício de tristeza?

(Joaquim Pessoa)

O SOM DAS NUVENS

Sim, daqui ouço o mar mas ainda não é noite, ainda há raios pintados de cor de prata na estrada liquida onde as palavras se perdem. E eu caminho na eternidade dos meus pensamentos em passos lentos numa direcção descontínua. As estrelas ainda estão intactas na sua mordomia sonolenta e esta história podia ser escrita agora ou nas reminiscências do ontem. Sim, daqui ouço o mar mas cheira a terra sempre que o vento enfurece, e fica uma incógnita no meu sorriso, uma nitidez que se desfaz em espuma branca na imitação das ondas. Queria ver-te, sabes? Queria tocar no som das nuvens que já não fazes e ouvir a imensidão daqueles momentos por onde entrava o luar, queria encharcar os ossos naquela chuva azul que nos lavava por dentro e apagava as cores da água fria de Novembro. Ainda te lembras quando ficávamos inundados de sonhos caídos da última madrugada? Sim, ouço o mar daqui, mas hoje é um daqueles dias que precisava ver a lua no entardecer e pintar-te nas ruas da noite que começa a abraçar-me.

(Francisco Valverde Arsénio)

PROMESSA

prometi-me os picos do mundo
e as miragens
que os deuses lançaram nos sonhos do homem

mas o paraíso não se alcança sem fortuna
e as miragens
não têm o esplendor dos oceanos
nem o sabor do orvalho matinal

(João Carlos Esteves)

COMPLETUDE

a natureza ficou completa
quando surgiste
e lhe vestiste os dias com o teu corpo

(João Carlos Esteves)
" a cultura é o diálogo do homem com o seu tempo,
um diálogo enquadrado por uma estética, uma técnica e uma ética;
é o produto da convergência da tradição com o talento individual."

(Rui Lage, Público)
Não pensar
é mais difícil 
do que pensar
e o pensamento
é tanto mais rico e fluído
quando inclui em si
o vazio do não pensar.

(António Ramos Rosa)
" O silêncio só é silêncio 
quando é o silêncio do silêncio."

(António Ramos Rosa)
"Não é ao sol
que se vê melhor o sol
mas pelos caminhos da sombra"

(António Ramos Rosa)

POEMA DA RECUSA

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

(Maria Teresa Horta)

DIA 113 (EXCERTO)

Apertei os sapatos em terra para caminhar pelas ondas que me levaram ao coração livre dos pássaros, ao imenso espaço das gaivotas, às searas do sal, às colinas do mar onde se fabrica o azul.
Depois, a técnica foi gostar. E amar. Amar muito, sempre. 
E sempre sem esperar nada de ninguém. Sem apascentar promessas, sem duvidar de mim. Crescer pelos ombros, pelos olhos, pelas curvas da distância.
O país do amor não tem horizontes, nem sequer tem horas, o país do amor não possui caminhos. Está-se lá, apenas. Vive-se lá, onde todas as perdas são possíveis para ganhar alguma coisa de que precisamos, e sem precisar de gostar dela.
As águas do amor são mais humildes que transparentes, e a elementar serpente que as atravessa, e que arrulha como uma pomba, é na realidade uma pomba se tu não quiseres que seja uma serpente.
Eu não te invento nas canções, não te beijo com a saudade que vive na memória das ruínas, nem espero por ti com a queixa escondida no peito frio das muralhas.
Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti, e o meu olhar beija-te. Canto, e é a ti que canto.

(Joaquim Pessoa)

NUMA TARDE DE SOL

houve preces mudas nos olhares
e vozes silentes
ouvidas nas entrelinhas da palavra inócua e casual

houve uma praia percorrida de mão dada
e pés descalços na espuma da maré
sem que as gotas nos beijassem as pegadas

houve um beijo sonhado na imagem dos teus lábios
e o sabor do teu sorriso mar
que permanece na memória

houve uma tarde de sol
que cresceu em anoitecer tranquilo
e desejo feito sonho...


(João Carlos Esteves)